Você Sabe o Que Realmente Faz um Enfermeiro na Classificação de Risco?

Quando um paciente chega ao pronto-socorro, o tempo vira um inimigo silencioso. Alguns minutos podem separar a vida da morte. É nesse cenário de pressão, dor e urgência que o enfermeiro da classificação de risco assume um dos papéis mais decisivos da assistência em saúde.
O Protocolo de Manchester não é apenas um sistema de cores. Ele é uma ferramenta clínica, legal e ética que coloca o enfermeiro como protagonista do atendimento inicial. Mas afinal, o que o enfermeiro realmente faz na prática? É isso que este artigo revela.

Classificação de Risco: Muito Além de “Escolher uma Cor”

Um erro comum é pensar que o enfermeiro apenas “marca uma cor” e encaminha o paciente. Na realidade, a classificação de risco exige raciocínio clínico rápido, escuta qualificada e tomada de decisão sob pressão.

No primeiro contato, o enfermeiro:

  • Avalia sinais vitais

  • Identifica queixas principais e sinais de gravidade

  • Observa estado neurológico, respiratório e hemodinâmico

  • Reconhece riscos iminentes de morte ou agravamento

Tudo isso acontece antes mesmo de qualquer exame.

O Que é o Protocolo de Manchester, na Prática?

O Protocolo de Manchester é um sistema estruturado de triagem que classifica os pacientes conforme gravidade e tempo máximo seguro para atendimento, e não por ordem de chegada.

As cinco cores e seus significados clínicos:
  • 🔴 Vermelho – Atendimento imediato (risco iminente de morte)

  • 🟠 Laranja – Muito urgente (até 10 minutos)

  • 🟡 Amarelo – Urgente (até 60 minutos)

  • 🟢 Verde – Pouco urgente (até 120 minutos)

  • 🔵 Azul – Não urgente (até 240 minutos)

Cada decisão precisa ser justificada clinicamente e registrada, pois tem implicações legais diretas.

O Papel do Enfermeiro: Decisão Clínica em Tempo Real

Na classificação de risco, o enfermeiro não age por intuição. Ele utiliza fluxogramas clínicos, discriminadores e critérios objetivos.

Exemplos práticos do cotidiano:
  • Paciente com dor torácica + sudorese + palidez → Laranja ou Vermelho, mesmo com sinais vitais aparentemente normais

  • Criança febril, prostrada e com gemência → Urgência real, não “apenas febre”

  • Paciente hipertenso, confuso e com cefaleia súbita → suspeita de AVC, prioridade absoluta

Aqui, o conhecimento técnico do enfermeiro salva tempo e salva vidas.

Erros Graves Que Podem Custar Vidas

Alguns equívocos ainda ocorrem na prática e precisam ser combatidos:

  • Classificar apenas pelo sintoma relatado, sem exame clínico

  • Desconsiderar alterações sutis, como taquipneia ou confusão mental

  • Ceder à pressão de acompanhantes ou da fila

  • Falta de reavaliação do paciente em espera

O Protocolo de Manchester exige reavaliação contínua, pois o quadro clínico pode mudar rapidamente.

Responsabilidade Legal e Ética do Enfermeiro

A classificação de risco é uma atividade privativa do enfermeiro, respaldada por normas do sistema de saúde brasileiro.
Uma classificação inadequada pode gerar:

  • Agravamento do quadro clínico

  • Eventos adversos graves

  • Responsabilização ética e judicial do profissional

Por isso, capacitação contínua e prática baseada em evidências são indispensáveis.

A Classificação de Risco Como Ato de Cuidado

Mais do que organizar filas, o enfermeiro:

  • Humaniza o atendimento

  • Explica o tempo de espera com base clínica

  • Reduz conflitos no serviço de urgência

  • Garante segurança ao paciente

A classificação de risco é o primeiro cuidado real que o paciente recebe ao entrar no serviço.

Conclusão

O enfermeiro na classificação de risco não é um “porteiro da emergência”. Ele é um tomador de decisões clínicas, um profissional treinado para identificar riscos invisíveis aos olhos leigos.
O Protocolo de Manchester revela uma verdade muitas vezes ignorada: quem decide quem será atendido primeiro é quem sabe reconhecer quem corre mais risco de morrer.

Referências
  • Ministério da Saúde. Acolhimento com Classificação de Risco

  • Conselho Federal de Enfermagem (COFEN). Atuação do Enfermeiro em Urgência e Emergência

  • Manchester Triage Group. Emergency Triage

  • Estação Enfermagem. Como funciona o Protocolo de Manchester?

  • Relatos de experiência em serviços de emergência hospitalar