Sangrou, o Tempo Acabou: O Que a Enfermagem Precisa Fazer Diante de uma Hemorragia Grave no APH

Quando o sangue escorre, o relógio corre

No atendimento pré-hospitalar, poucas cenas são tão silenciosamente perigosas quanto uma hemorragia ativa. Não há monitor apitando, não há exames de imagem, não há tempo para hesitação. O que existe é sangue se perdendo e um corpo entrando rapidamente em colapso. A hemorragia grave é uma das principais causas de morte evitável no trauma, e a forma como a enfermagem age nos primeiros minutos define se aquele paciente chegará vivo ao hospital ou não.

No APH, controlar o sangramento é mais do que um procedimento técnico. É uma corrida contra a fisiologia, contra a hipovolemia, contra o choque hemorrágico que se instala sem pedir permissão.

Hemorragia no APH: por que ela mata tão rápido?

A perda sanguínea aguda compromete o transporte de oxigênio, reduz a perfusão tecidual e desencadeia uma cascata de eventos que culminam em acidose metabólica, hipotermia e coagulopatia. A chamada tríade letal do trauma começa muitas vezes ali, no chão da rua, antes mesmo da ambulância ligar a sirene.

Em situações de atropelamento, ferimentos por arma branca, arma de fogo, acidentes motociclísticos ou quedas de grande altura, a hemorragia externa visível costuma ser apenas a ponta do iceberg. O grande perigo é subestimar a velocidade com que o organismo entra em choque.

Identificação rápida: o olhar clínico salva vidas

No APH, a enfermagem não pode esperar sinais tardios. Pele pálida e fria, sudorese intensa, taquicardia, confusão mental, enchimento capilar lento e queda progressiva do nível de consciência são alertas imediatos. Um sangramento ativo que encharca roupas ou o solo indica perda significativa, mesmo antes de qualquer mensuração precisa.

A pergunta não deve ser “quanto o paciente já perdeu”, mas sim “quanto ele ainda vai perder se eu não agir agora”.

Controle do sangramento: prioridade absoluta

No atendimento inicial ao trauma, a contenção da hemorragia vem antes de quase tudo. Compressão direta firme e contínua é a primeira medida e continua sendo extremamente eficaz. Em ferimentos de membros, quando a compressão não é suficiente, o uso correto do torniquete salva vidas e não deve ser visto como última opção.

A enfermagem no APH precisa dominar a técnica, saber o momento certo de aplicar, registrar o horário e monitorar continuamente o membro. O medo de necrose não pode ser maior que o risco imediato de morte por exsanguinação.

Em ferimentos profundos, o tamponamento com compressas, quando indicado e treinado, também pode ser decisivo. Cada segundo economizado representa volume sanguíneo preservado.

O papel da enfermagem na prevenção do choque hemorrágico

Enquanto controla o sangramento, a enfermagem já atua na prevenção do choque. Manter o paciente aquecido, evitar exposição desnecessária, posicionar corretamente e garantir oxigenação adequada fazem parte de um cuidado integrado.

No APH, o acesso venoso pode ser desafiador, mas deve ser tentado de forma rápida e estratégica, sempre respeitando protocolos. Mais importante do que volumes excessivos de fluidos é evitar a diluição dos fatores de coagulação e agravar o sangramento. A abordagem moderna prioriza controle da hemorragia antes da reposição agressiva.

Comunicação e decisão: enfermagem que pensa rápido

A enfermagem no atendimento pré-hospitalar não executa apenas ordens. Ela observa, avalia, comunica e decide. Informar corretamente a regulação, antecipar a gravidade e direcionar o paciente para o serviço adequado fazem parte da assistência segura.

Uma hemorragia mal controlada no local da ocorrência se transforma em uma parada cardiorrespiratória dentro da ambulância. Muitas mortes acontecem não por falta de tecnologia, mas por atraso na decisão.

Treinamento salva mais do que equipamentos

Não é o material mais caro que salva vidas, mas a equipe treinada. Reconhecer uma hemorragia grave, agir sem hesitar, aplicar técnicas corretas e trabalhar de forma coordenada são competências que precisam ser treinadas repetidamente.

A enfermagem que atua no APH precisa enxergar o controle do sangramento como prioridade absoluta, acima de protocolos engessados e do medo de errar. O erro, nesse cenário, quase sempre é não agir.

Conclusão: no APH, controlar a hemorragia é controlar o destino

A hemorragia grave não espera, não negocia e não perdoa atrasos. No atendimento pré-hospitalar, a enfermagem ocupa uma posição estratégica entre a vida e a morte. Reconhecer rapidamente, agir com técnica e pensar de forma crítica transforma minutos em sobrevivência.

Quando o sangue começa a se perder, não é só o volume que vai embora. É o tempo. E no APH, tempo é tudo.

Referências
  • Ministério da Saúde. Atendimento Pré-Hospitalar ao Trauma

  • Organização Mundial da Saúde (OMS). Guidelines for Trauma Care

  • Suporte Avançado de Vida no Trauma (ATLS)

  • Conselho Federal de Enfermagem (COFEN)

  • Sociedade Brasileira de Atendimento Integrado ao Trauma (SBAIT)