Sangramento Não Espera Ambulância: O Que a Enfermagem Precisa Fazer nos Primeiros Minutos do APH


No atendimento pré-hospitalar, o tempo não corre, ele sangra. Hemorragias graves estão entre as principais causas de morte evitável no APH, e a diferença entre vida e óbito pode estar em decisões tomadas nos primeiros 3 a 5 minutos. Este artigo discute, de forma direta e prática, como a enfermagem deve agir diante de hemorragias no atendimento inicial, com foco em condutas baseadas em evidência, sem romantizar o improviso nem normalizar falhas estruturais.
Hemorragia no APH: por que ela mata tão rápido?
A hemorragia externa ou interna leva à hipovolemia, redução da perfusão tecidual e rápida progressão para choque hemorrágico. No APH, o cenário é ainda mais crítico:
Ausência de exames complementares
Recursos limitados
Ambiente hostil (rua, rodovia, domicílio, cena insegura)
Necessidade de decisão imediata
Não é exagero afirmar que o controle do sangramento vem antes de quase tudo, inclusive da via aérea em determinados contextos.
Classificação dos sangramentos no atendimento pré-hospitalar
Para agir rápido, a enfermagem precisa reconhecer o tipo de sangramento em segundos:
🔴 Hemorragia externa
Visível
Geralmente traumática
Pode ser arterial, venosa ou capilar
⚫ Hemorragia interna
Não visível
Suspeitar em politrauma, abdome rígido, rebaixamento do nível de consciência, taquicardia sem sangramento aparente
No APH, suspeita salva vidas. Esperar confirmação mata.
O papel da enfermagem no controle imediato da hemorragia
A enfermagem não é coadjuvante no APH. É linha de frente.
1. Compressão direta: simples, eficaz e negligenciada
A compressão manual firme continua sendo a primeira medida. Porém, o erro comum é:
Compressão fraca
Interrupções constantes
Falta de tempo mínimo adequado
Compressão mal feita é quase o mesmo que não fazer.
2. Curativo compressivo: quando a mão já não basta
Utilizar bandagens adequadas, mantendo pressão contínua, sem retirar curativos encharcados para “olhar”. Curativo não se espia, se reforça.
3. Torniquete: do tabu à evidência científica
Durante anos, o torniquete foi demonizado. Hoje, ele é salvador de vidas quando bem indicado.
Indicações no APH:
Hemorragia externa grave em membros
Amputações traumáticas
Falha da compressão direta
Erro comum: medo de usar.
Erro fatal: não usar quando indicado.
Protocolo XABCDE no APH: onde entra o sangramento?
No atendimento moderno, o X vem antes do A.
X – eXsanguinação
Controle imediato da hemorragia maciça
Somente depois se segue para:
A – Por via aérea
B – Respiração
C – Circulação
D – Avaliação neurológica
E – Exposição
Ignorar o X é seguir protocolo incompleto.
Choque hemorrágico: sinais que a enfermagem não pode ignorar
No APH, sinais clássicos nem sempre aparecem cedo. Atenção a:
Taquicardia persistente
Pele fria e pegajosa
Ansiedade inexplicável
Palidez progressiva
Rebaixamento do nível de consciência
Hipotensão é sinal tardio. Esperar pressão cair é chegar atrasado.
Transporte rápido também é cuidado
APH não é hospital de campanha improvisado. Após controle inicial:
Cena segura
Hemorragia controlada
Oxigenação adequada
Transporte rápido para serviço de referência
Excesso de procedimentos na cena atrapalha mais do que ajuda.
A realidade que ninguém gosta de discutir
Fala-se muito em APH ideal, mas pouco em:
Falta de materiais
Equipes reduzidas
Treinamento insuficiente
Pressão institucional por “resultado”
Não adianta cobrar excelência de quem trabalha no limite. Segurança do paciente começa na gestão, não no improviso do profissional.
Conclusão
No atendimento pré-hospitalar, quem controla o sangramento controla o destino do paciente. A enfermagem precisa ser capacitada, respaldada e respeitada para agir com segurança, sem medo e sem culpa institucional. Hemorragia é emergência absoluta, e cada minuto de hesitação cobra um preço alto demais.
Referências
PHTLS – Suporte Pré-Hospitalar de Vida no Trauma. NAEMT.
ATLS – Suporte Avançado de Vida no Trauma. Colégio Americano de Cirurgiões.
Ministério da Saúde. Atendimento Pré-Hospitalar ao Trauma.
Organização Mundial da Saúde (OMS). Diretrizes para o atendimento de traumas.
Campanha Stop the Bleed (Pare a Hemorragia). Colégio Americano de Cirurgiões.
