SAMPLE no Atendimento de Urgência: Como a Enfermagem Coleta Informações Essenciais em Minutos Decisivos


Quando perguntar certo muda o desfecho
No atendimento de urgência e emergência, especialmente no cenário pré-hospitalar, a enfermagem muitas vezes dispõe de poucos minutos para compreender quem é aquele paciente e o que realmente está acontecendo. Não há prontuário, não há histórico detalhado e, em muitos casos, o paciente mal consegue falar. É nesse contexto que o método SAMPLE se torna uma das ferramentas mais valiosas da avaliação clínica inicial.
Mais do que um roteiro de perguntas, o SAMPLE organiza o raciocínio clínico e evita que informações críticas sejam esquecidas em meio ao caos da cena.
O que é o SAMPLE e por que ele é tão importante
O SAMPLE é um acrônimo utilizado mundialmente no atendimento de urgência e emergência para coleta rápida e estruturada da história clínica. Cada letra representa um bloco de informações essenciais: sinais e sintomas, alergias, medicamentos em uso, passado médico, última refeição e eventos relacionados ao quadro atual.
Essa sequência simples permite que a enfermagem construa um panorama clínico inicial mesmo em ambientes hostis, como acidentes de trânsito, domicílios ou salas de emergência lotadas.
S de Sinais e sintomas: o que o paciente está sentindo agora
O primeiro passo é identificar os sinais e sintomas atuais. Dor, dispneia, tontura, náuseas, sangramentos, alterações neurológicas ou qualquer queixa referida ou observada devem ser registradas. Aqui, o olhar clínico da enfermagem complementa o relato do paciente, especialmente quando ele não consegue se expressar adequadamente.
No APH, observar postura, padrão respiratório, coloração da pele e nível de consciência pode revelar tanto quanto uma resposta verbal.
A de Alergias: um detalhe que pode salvar vidas
Perguntar sobre alergias é uma etapa simples, mas frequentemente negligenciada em situações críticas. Reações alérgicas a medicamentos, alimentos ou látex podem transformar um atendimento padrão em uma emergência grave.
A enfermagem deve registrar não apenas a existência da alergia, mas, sempre que possível, o tipo de reação apresentada anteriormente. Esse cuidado evita erros de medicação e intervenções perigosas.
M de Medicamentos: o que esse paciente já usa
Saber quais medicamentos o paciente faz uso contínuo ajuda a interpretar sinais clínicos e orientar condutas. Anticoagulantes, anti-hipertensivos, insulina, broncodilatadores e psicotrópicos alteram diretamente a abordagem na urgência.
No cenário pré-hospitalar, muitas vezes a informação vem de familiares, vizinhos ou até de embalagens encontradas no local. A enfermagem precisa ter sensibilidade e atenção para captar esses dados rapidamente.
P de Passado médico: doenças que mudam tudo
Doenças pré-existentes como hipertensão, diabetes, cardiopatias, asma, DPOC, epilepsia ou insuficiência renal influenciam diretamente a avaliação e o risco do paciente. Um quadro de dispneia em um paciente cardiopata, por exemplo, acende alertas completamente diferentes.
Mesmo informações incompletas já ajudam a direcionar o cuidado e antecipar complicações.
L de Última refeição: a última refeição importa mais do que parece
Saber quando foi a última alimentação é fundamental, principalmente em pacientes com risco de necessidade de via aérea avançada ou procedimentos invasivos. O risco de broncoaspiração aumenta significativamente em pacientes com alimentação recente.
No APH, essa informação pode parecer secundária, mas se torna crucial minutos depois, na sala de emergência ou no centro cirúrgico.
E de Events: o que aconteceu antes do atendimento
O último componente do SAMPLE busca entender os eventos que levaram ao quadro atual. O que o paciente estava fazendo, quando os sintomas começaram, se houve trauma, queda, esforço físico ou uso de substâncias.
Essa etapa ajuda a diferenciar causas clínicas de traumáticas e orienta toda a linha de cuidado. Muitas vezes, é aqui que a enfermagem identifica o gatilho real da emergência.
Aplicação do SAMPLE na prática da enfermagem
Na rotina, o SAMPLE não precisa ser feito de forma engessada ou mecânica. Ele pode e deve ser adaptado à condição do paciente. Em um paciente instável, algumas informações virão depois da estabilização. Em outros casos, a coleta completa é possível ainda no local.
O mais importante é que a enfermagem tenha o método internalizado, usando-o como guia mental para não perder dados essenciais em situações de alta pressão.
SAMPLE e segurança do paciente
O uso sistemático do SAMPLE melhora a comunicação entre equipes, reduz erros de medicação, facilita a passagem de caso e contribui para decisões mais seguras. Quando a enfermagem transmite um histórico organizado, o atendimento ganha fluidez e precisão.
Em urgência e emergência, informação correta no tempo certo salva tanto quanto qualquer procedimento.
Conclusão: perguntar certo também é cuidar
No atendimento emergencial, a enfermagem não cuida apenas com as mãos, mas também com perguntas bem feitas. O SAMPLE é uma ferramenta simples, acessível e extremamente eficaz para estruturar a avaliação clínica inicial.
Dominar o SAMPLE é dominar o início do cuidado. E, muitas vezes, é nesse início que o desfecho começa a ser definido.
Referências
Ministério da Saúde. Atendimento Pré-Hospitalar de Urgência
Organização Mundial da Saúde (OMS). Emergency Care Systems
Suporte Avançado de Vida no Trauma (ATLS)
Suporte Pré-Hospitalar de Vida no Trauma (PHTLS)
Conselho Federal de Enfermagem (COFEN)
