Janeiro Branco para Quem? Quando a Saúde Mental da Enfermagem é Ignorada Dentro do Próprio Serviço

Janeiro chega, os laços brancos aparecem, discursos bonitos ocupam a mídia e as redes sociais se enchem de mensagens sobre autocuidado, empatia e prevenção do adoecimento mental. Mas, para muitos profissionais de enfermagem, a pergunta que ecoa silenciosamente é direta e incômoda: Janeiro Branco para quem?

Enquanto gestores discursam sobre saúde mental em campanhas institucionais, nos bastidores da assistência a realidade costuma ser bem diferente. Escalas abusivas, sobrecarga de trabalho, cobrança excessiva, falta de recursos e, em muitos casos, assédio moral velado ou explícito fazem parte do cotidiano de quem sustenta o sistema de saúde com o próprio corpo e mente.

A sobrecarga invisível que adoece a enfermagem

A enfermagem é a maior força de trabalho da saúde e, paradoxalmente, uma das mais negligenciadas quando o assunto é cuidado com quem cuida. Jornadas exaustivas, acúmulo de funções, déficit crônico de profissionais e pressão constante por produtividade criam um ambiente propício ao esgotamento físico e emocional.

No dia a dia, isso se traduz em plantões sem pausa adequada, profissionais cobrados por resultados sem condições mínimas de trabalho e uma cultura de normalização do cansaço extremo. Frases como “enfermagem aguenta”, “sempre foi assim” ou “é só um período difícil” ajudam a silenciar o sofrimento e empurram muitos profissionais para o limite.

Quando o discurso não combina com a prática

Durante o Janeiro Branco, gestores aparecem em campanhas falando sobre escuta ativa, acolhimento e bem-estar emocional. No entanto, fora das câmeras, muitos desses mesmos profissionais de liderança adotam práticas que vão na contramão de tudo o que pregam.

Cobranças públicas, ameaças veladas, exposição de erros de forma humilhante, perseguições, manipulação emocional e desvalorização constante são formas de assédio moral que adoecem silenciosamente. O problema não está apenas na carga de trabalho, mas na forma como o profissional é tratado dentro da instituição.

A incoerência entre discurso e prática gera descrédito, frustração e sentimento de injustiça, ampliando o sofrimento psíquico da equipe de enfermagem.

Assédio moral: o desgaste que não aparece nos indicadores

Diferente de uma fratura ou de uma doença infecciosa, o assédio moral não aparece em exames laboratoriais. Ele se manifesta em ansiedade constante, medo de errar, insônia, irritabilidade, crises de choro, perda de motivação e, em casos mais graves, depressão e síndrome de burnout.

Muitos profissionais continuam trabalhando mesmo adoecidos, por medo de represálias, perda do emprego ou julgamento da equipe. O resultado é um ciclo perverso: profissionais emocionalmente exaustos cuidando de pacientes em situações críticas, com risco aumentado de erros e afastamentos.

A falsa romantização da resiliência na enfermagem

Existe uma romantização perigosa da ideia de que a enfermagem é naturalmente resiliente e “dá conta de tudo”. Essa narrativa, embora pareça elogiosa, funciona como uma armadilha. Ela transfere a responsabilidade do cuidado institucional para o indivíduo, como se o adoecimento fosse falta de força emocional e não consequência de condições de trabalho inadequadas.

Resiliência não pode ser usada como desculpa para tolerar abusos, sobrecarga crônica e ambientes tóxicos. Cuidar da saúde mental da enfermagem exige mudanças estruturais, e não apenas palestras motivacionais uma vez por ano.

O papel dos gestores na promoção real da saúde mental

Promover saúde mental não é apenas falar sobre o tema em datas simbólicas. É garantir dimensionamento adequado de pessoal, condições dignas de trabalho, canais seguros de escuta, respeito profissional e liderança ética.

Gestores precisam compreender que ambientes saudáveis reduzem adoecimento, afastamentos e rotatividade, além de impactarem diretamente na qualidade da assistência prestada. Cuidar da equipe não é favor, é responsabilidade legal, ética e humana.

Janeiro Branco como ponto de reflexão, não de maquiagem institucional

O Janeiro Branco deveria ser um convite à reflexão profunda sobre como as instituições tratam seus profissionais ao longo de todo o ano. Para a enfermagem, saúde mental não se constrói com campanhas pontuais, mas com respeito diário, valorização profissional e combate efetivo ao assédio moral.

Enquanto o discurso continuar bonito apenas para o público externo, e a prática seguir adoecendo quem está na linha de frente, o Janeiro Branco continuará sendo, para muitos profissionais de enfermagem, apenas mais um mês de silêncio e resistência.

Conclusão

Falar sobre saúde mental sem mudar práticas abusivas é, no mínimo, incoerente. Para a enfermagem, o adoecimento psíquico não é fraqueza individual, mas reflexo direto de sistemas de trabalho que exploram, silenciam e desvalorizam.

Se o objetivo é realmente cuidar da saúde mental, é preciso começar olhando para dentro das instituições, ouvindo quem está no plantão e transformando o discurso em ação. Porque quem cuida também precisa ser cuidado, todos os meses do ano.

Referências
  • Organização Mundial da Saúde (OMS). Saúde Mental no Trabalho.

  • Ministério da Saúde. Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora.

  • Conselho Federal de Enfermagem (COFEN). Assédio Moral na Enfermagem.

  • Organização Internacional do Trabalho (OIT). Ambientes de Trabalho Saudáveis.

  • Fiocruz. Síndrome de Burnout em Profissionais da Saúde.