Escala de Glasgow na Urgência e Emergência: Como a Enfermagem Avalia Consciência e Reconhece Deterioração Neurológica

Avaliar consciência não é detalhe, é prioridade clínica

Na urgência e emergência, alterações do nível de consciência representam um dos sinais mais críticos da avaliação inicial. Um paciente pode estar respirando, com pulso presente e ainda assim evoluir rapidamente para deterioração neurológica grave. É nesse cenário que a Escala de Coma de Glasgow se torna uma ferramenta indispensável para a enfermagem.

Mais do que atribuir números, aplicar corretamente a Glasgow significa interpretar a função cerebral, identificar riscos imediatos e comunicar gravidade de forma objetiva para toda a equipe.

O que é a Escala de Glasgow e por que ela é tão utilizada

A Escala de Coma de Glasgow é um instrumento clínico padronizado que avalia o nível de consciência por meio de três parâmetros: abertura ocular, resposta verbal e resposta motora. Seu uso é consolidado mundialmente tanto no atendimento pré-hospitalar quanto intra-hospitalar, especialmente em trauma, emergências neurológicas e pacientes críticos.

A grande vantagem da Glasgow é permitir uma linguagem comum entre profissionais. Quando a enfermagem informa um Glasgow 8, toda a equipe compreende instantaneamente a gravidade do quadro.

Abertura ocular: o primeiro reflexo observado

A resposta ocular avalia o grau de alerta do paciente. A abertura espontânea sugere estado de vigília preservado. Já a necessidade de estímulos verbais ou dolorosos indica comprometimento neurológico progressivo.

Na prática clínica, é essencial diferenciar ausência de abertura ocular por sedação, edema palpebral ou trauma ocular. A enfermagem deve sempre interpretar o contexto, evitando erros de classificação.

Resposta verbal: mais do que ouvir palavras

A avaliação verbal examina orientação, coerência e capacidade de interação. Um paciente confuso, desorientado ou emitindo sons incompreensíveis já apresenta disfunção cerebral relevante.

Em pacientes intubados, traqueostomizados ou com barreiras mecânicas, a enfermagem não deve atribuir pontuação inadequada. O registro correto evita interpretações clínicas equivocadas e decisões terapêuticas erradas.

Resposta motora: o componente mais valioso da escala

A resposta motora é considerada o parâmetro mais confiável da Glasgow. Obedecer comandos indica função cortical preservada. Movimentos de retirada à dor, flexão anormal ou extensão refletem graus distintos de comprometimento neurológico.

No atendimento de urgência, observar assimetria motora, ausência de resposta ou posturas anormais pode ser o primeiro indicativo de lesões intracranianas graves, AVC ou hipóxia cerebral.

Glasgow na prática da enfermagem: erros comuns e riscos

Um erro frequente é aplicar a escala de forma automática, sem considerar fatores interferentes como sedação, intoxicação, déficit auditivo ou barreiras linguísticas. A Glasgow não é apenas soma de pontos, é avaliação clínica estruturada.

Outro equívoco é registrar apenas o valor total. A anotação completa dos componentes ocular, verbal e motor fornece dados muito mais ricos para acompanhamento evolutivo.

Quando a Glasgow indica gravidade imediata

Valores iguais ou inferiores a 8 estão classicamente associados a risco de perda de via aérea e necessidade de intervenções avançadas. Porém, mais importante do que o número isolado é a tendência evolutiva.

Uma queda progressiva na pontuação, mesmo dentro de valores considerados moderados, pode sinalizar deterioração neurológica em curso. A enfermagem precisa reconhecer essas mudanças precocemente.

Escala de Glasgow no APH: decisões sob pressão

No atendimento pré-hospitalar, a Glasgow auxilia decisões críticas como prioridade de transporte, acionamento de suporte avançado e comunicação com a regulação médica. Muitas condutas hospitalares começam a ser definidas ainda na ambulância.

A enfermagem no APH deve dominar a escala, aplicando-a de forma rápida, precisa e repetida sempre que necessário.

Glasgow e segurança do paciente crítico

A avaliação neurológica sistemática permite monitorar evolução clínica, detectar complicações e avaliar resposta terapêutica. Em unidades de emergência, UTI ou enfermarias, pequenas alterações podem indicar eventos graves em desenvolvimento.

Registrar corretamente, reavaliar periodicamente e comunicar mudanças fazem parte da assistência segura.

Conclusão: consciência avaliada, risco identificado

A Escala de Glasgow permanece como uma das ferramentas mais importantes da prática em urgência e emergência. Sua aplicação adequada exige conhecimento técnico, raciocínio clínico e atenção aos detalhes.

Para a enfermagem, dominar Glasgow não é apenas cumprir protocolo. É reconhecer precocemente a deterioração neurológica e agir antes que o quadro se torne irreversível.

Referências
  • Teasdale G, Jennett B. Avaliação do coma e da alteração da consciência.

  • Ministério da Saúde. Protocolos de Urgência e Emergência

  • Suporte Avançado de Vida no Trauma (ATLS)

  • Suporte Pré-Hospitalar de Vida no Trauma (PHTLS)

  • Conselho Federal de Enfermagem (COFEN)